Meu perfil
BRASIL, Nordeste, JOAO PESSOA, CASTELO BRANCO, Homem, de 36 a 45 anos, Arte e cultura, Cinema e vídeo



Arquivos

Votação
 Dê uma nota para meu blog

Outros links
 UOL
 UOL SITES
 Diario de Cores
 Fábula Portátil
 Márcia Maia
 Mudança de Ventos
 Carpinejar
 Jesus me Chicoteia
 Voando pelo céu da boca
 Linaldo Guedes
 Ana Peluso
 Escafandro
 Renato Félix
 Leminski
 Claudio Daniel
 Portalbip
 Cronopios
 Bestiario
 Oceanos e desertos
 Paulo de Toledo
 Revista Continente
 Mariana Mesquita
 Fullbag
 Papel passado
 Poligrafia
 Siga o coelho branco
 A casa das mil portas
 Marpessa
 Germina
 Plinio Fuentes
 1000 images
 Livro dos dias
 Além da rua
 Daniel Sampaio
 Balde de água suja
 Não que importe
 Clube do Conto
 Algaravia
 Antoniel Campos
 Amanda K
 Zona Branca
 Saudade do Papel
 Achados e Perdidos
 Dona Estulticia
 Depósito do Calvin
 Geraldo Maciel
 Zooreta (blog de literatura animal)




Engrenagem
 


Um rio só margem

 

 

 

 

Poesia tem seus lugares. Calha de ser no espaço que o poeta elege, mas atenção: esta eleição é uma escolha pelo precário, porque toda linguagem que se eleva a uma exceção toca-se por este signo. O poeta mesmo simula, do lugar nenhum o seu algo precioso: dizer este mesmo precário com a melhor das más intenções. O mau/bem intencionado aqui em questão é Vamberto Spinelli Júnior com o seu Sem lugar, premiado e editado pela Editora Universitária. É uma voz que já começa segura na lírica paraibana, dando-se ao luxo de estabelecer uma pequena obra que dialoga por dentro. Avança como pode, poema a poema. E deixa claro desde a entrada: onde moro ninguém / mora. O índice que usa é a desinência “des”. Lembrando o axiomático “desfazer é melhor que tecer” de Orides Fontela.

 

Essa consciência da falta perpassa a maior parte dos poemas. O sem lugar da existência também é o estatuto da não-herança, da não-identidade. O que é possível se agarrar a algo está mesmo no desespero calmo, a seco. O tempo que se evapora no sintomático “.casa de vapor”:

 

ontem morei

   100 dias na minha velhice

 

 hoje não me permito

   alterar minha infância

   nos próximos 30 segundos

 

O livro trata desse abuso da carência existencial com relativo senso epigramático. Vamberto diz com frases e imagens sem rodeios, quase descarnadas. É óbvio que o projeto soa coerente. Sobretudo nas lições intertextuais em que, mesmo vacilantes em alguns momentos, cria estratégias à beira do excessivo uso, mas ainda valida pelo senso de construção – o que é raro na maior parte das estréias. Nota ironia e o uso do trocadilho (cuidado, parcimônia também é arte!) ao gosto do público. Mas dá o salto e assume:

 

.para sui e cida

 

 de tanto morrer antes

 foice  veloz no pescoço

de vez.      

 

Na segunda parte, “.existir”, o arco vai da matéria da vida à metalinguagem, dialogando ao deus-dará com temas caros e precedentes. Vamberto se detêm mesmo nesses pequenos temas que, no conjunto, criam uma identidade própria e que com alguma sorte, reage como densidade poética. Algumas construções chamam a novidade sem medo: “e uma maré de pernas / sem bússola”, “o homenageado não veio / / seria deus?”, “poesia: gesto extingo em si”.

 

Vamberto Spinelli tem muito que dizer. Nota-se por esse doar imagem, por alguma fisgada que tanto oferece o anzol quanto o puxa sem espera por peixe. Os poemas dizem os mesmos temas de sempre, mas, com muita freqüência, o ar parece lavado dentro do livro: há mescla de estratégias construtivistas com inquirições pessoanas, e volta e meia a lírica atinge aquele interrogatório volátil próprio dos que usam a poesia como espelho, mesmo que baço. O livro tem mais qualidades que defeitos e vale dizer: conquista, num terreno avaro de geografias, um lugar. Mesmo que não se possa chamar de chão, mas areia movediça. Buscar, parafraseando Fontela, é melhor que encontrar.



Escrito por André às 12h07
[] [envie esta mensagem
] []





Rumor

Rumor de poema

entra em retirada

cem passos além

da intenção.

 

Fecharam a rua

para que o poema

pudesse fluir:

enchentes têm

sede.

 

Na amurada

o poema suicida olha

o abismo

de olhos saltados

 

Muita forca

para pouco pescoço.



Escrito por André às 18h11
[] [envie esta mensagem
] []



 
  [ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]