Atribulações de um homem-bomba
Viviam próximos do distrito de Haifa, em Um-el-Fahim. O filho tinha uma lembrança do pai, ora como um sujeito caladão, ora como um farrista. Mas Nahib pouco ligava para o filho e a mulher que tinha vindo do Brasil, mais por curiosidade do que por amor. E Nahib, como era de veneta, gostava de pegar moda: já foi taxista, já quis montar um grupo musical, meteu-se a agiota e sócio de prostíbulo. Cismou, tempos depois, a ser um homem-bomba: tinham-lhe enfiado tanto as promessas de uma vida além, onze mil virgens, etc, que passou a freqüentar cursinhos intensivos e tempos depois, ganhou por mérito um colete onde poderia colocar explosivos como quem coloca medalhas.
Doía na lembrança do filho a estupidez da morte do seu pai. E como, aos 17 anos, já tinha estrada para o mundo, soube de uma mulher que era sensitiva e poderia estabelecer uma ligação com o além, seja de qualquer religião ou seita. Convenceu a mãe de que era preciso saber se o pai estava mesmo gozando da felicidade supra-terrena, se o céu prometido pelos estúpidos da facção terrorista estava lotado das tais virgens.
Foram caminhando até um distrito não muito afamado. Na entrada, um mendigo disse que Safira não estava naqueles dias, mas eles fizeram pouca monta e subiram as escadas. A casa era de dois pisos e embora a pobreza fosse visível, era adornada com o mau gosto das extravagâncias. Safira não os recebeu bem a princípio, mas a vista do dinheiro, foi prática o bastante para adiantar seus rituais para pegar sinal dos espíritos. Perguntou tudo sobre Nahib e pediu detalhes sobre o dia de sua morte. Contaram que Nahib acordou, fez abluções e voltou para o quarto dos fundos onde costumava dormir só nos últimos meses – um quartinho onde se guardavam as coisas que, depois, soube que eram os materiais necessários para um homem-bomba: fios, munições, mapas. O marido saiu às pressas levando no bolso um roteiro dos lugares que manteria contato antes de explodir num centro comercial.
Soube depois pelo jornal o triste destino de Nahib. Pensou assim porque a facção negou veementemente o atentado. Nahib tinha parado num posto para abastecer o carro e resolveu dar uma volta pelos arredores. Acabou se perdendo e ao tentar cortar caminho por um beco, foi atacado por cães. Ao se defender, acionou o botão e explodiu levando consigo toda a matilha.
Ciente de que apesar de tudo era um pai esforçado e um marido convincente, sua mulher pediu a sensitiva que perguntasse, caso estabelecesse uma ligação, se o céu prometido valia o sacrifício. A vidente demorou uma eternidade, alegando sinal fraco da região. Foram minutos enervantes. Com um pouco de paciência, puderam notar que a voz mudou um pouco e a modulação engrossava. Reconheceram o timbre de Nahib. Eram um lamento e por alguns momentos pensaram se as virgens não o estavam chicoteando. O lamento foi crescendo, ganhou os plenos pulmões e puderam ouvir, em bom som, misturado com latidos de cachorros: Genalva, vem me buscar que eu estou odiando!
A vidente, com o dinheiro já enfiado no bolso, disse que Nahib estava cumprindo seu carma no céu dos 11 mil cachorros.
Escrito por André às 08h54
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