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Sumiços

 

 

 

Faz um tempo imenso sem te ver, não é? Também, você inventou aquela fórmula... tipo... extrema, estilo virar de página ou aquela brincadeira de espião que se cansou de ser mirado pela mira silenciosa de uma arma. No meu caso, minha arma, meu desejo, sei lá. O engraçado de tudo é que você trabalhava como assistente do mágico, coisa bem irônica, não acha? Não lembro o nome dele ou ele mesmo jamais quis um nome, mas uma vez saímos, eu, você, ele e o coelho. Sem a cartola, claro. Recordo a cena de ciúme velado, já nessa época brigávamos muito, sabia do teu gosto em começar a ficar oculto na minha vida. Você fazia isso muito bem. Espetáculos caseiros e paranóia. Nosso aniversário de namoro, combinamos uma aliança, recorda? Você chegou bêbado, sem pressa... como se a alma ainda estivesse saindo da carruagem e o corpo, desamparado, ficasse tímido e sem ação comigo. Não tinha muito o que dizer e quando tentamos nos dar a aliança, aquela sua brincadeira de mau gosto, a mão oferecida não existia, era decepada. Ilusionismo barato, este. Eu te jogava a louça, louca de raiva...você rebatia com um lenço vermelho e tudo sumia, nem cacos no chão, nem o grito estilhaçado da porcelana. Mandei tua mágica pros infernos tantas vezes que ela acabou ganhando foros de diabólica. Você então acabou desconfiando dele, não? Sei que rolou aí um ciúme violento, e que houve até discussão por minha causa. Os espetáculos no palco foram movidos a ódio e alçapões. Olha, eu tentei evitar, mas o encantamento maior foi saber que o mágico, mesmo no vendaval competitivo, e separando bem com o lema “amigos, amigos, mágicas a parte”, me respeitava e em encontros fortuitos, dizia que você não era má pessoa, frisando que sua imaturidade era uma questão maior, de filosofia de vida. E que a mágica era uma ilusão, não existia...era tudo truque e timing. Mas você era obcecado por resolver seus problemas na base da cartola, da fumaça, do serrote. De certa forma, foi o que houve, não? Em pouco tempo, a dissimulação, aquele movimento interno de farsa entre a gente... uma convivência entre cavalheiros saídos de romance inglês, pistolas de duelo vibrando no estojo. Você brincava e só você admitia brincar. No jantar que fizemos para o mágico (o coelho tinha sumido desta vez), senti que a mesa ainda era a extensão do palco e eu era uma platéia a ser conquistada. O mágico, como que provocava uma espécie de espicaçar mudo, na ordem natural e na selva dos sentimentos. Além da iguaria que preparei com esmero, você me tirou uma rosa inexistente do decote e a exibiu; o mágico a tomou de você e já era uma adaga na mão dele. Com um gesto de enfado, jogou no chão e era outra vez uma rosa, murcha. Senti um calafrio, a luz faltou, acendemos velas. Assim, a meia luz, vocês discutiram a possibilidade de mudar um determinado truque no palco, já que a idéia criadora partiu de você. A voz saiu tremida, meio mágoa, meio virulência.  O mágico hesitou, mas talvez num gesto cortês, olhando-me de fininho, concedeu a primazia. Sim, lembro, semanas depois, de tanto insistir, fui à estréia e vi um truque espalhafatoso, vazio e artificial. Era uma caixa de tamanho natural. Admira-me o mágico se propor a semelhante jugo, ele tão acostumado a dar as cartas. Amarrado e amordaçado, uma porta cheia de escamas afiadas. Como se acomodar lá dentro sem se ferir? Houve ribombos, as caras e bocas da platéia. Você anunciando o desaparecimento do mágico. Depois, fumaça, uns salamaleques de tua parte e helás, a caixa abriu-se com um bocejo de morte e só vimos o vazio. O mágico tinha sumido. Findo o espetáculo, muitos se perguntaram se o truque se estenderia ao infinito e onde poderia estar o mágico, etc; ele não voltara e houve aquela explicação artificiosa de que não passara bem e tivera que sair às pressas. Eu escapei apreensiva e tentei chegar até você, alcançando o beco do teatro. Depois tive medo e nessa hesitação, um vento gelado e a carruagem às pressas; supus que teu vulto e a cartola (dele? de quem mais?) sumiram na névoa. Dias depois, a temporada de shows foi cancelada. Nunca soube o que houve, o que se passara na tua cabeça e o que era do mágico. Voltei a treinar um ar meio blasé, acostumando-me com a idéia de vida que se cancela em cada dia e de compromissos que não voltam ao ponto de partida. Até o dia em que mexendo em coisas guardadas lá no porão, caixas antigas e objetos que fiquei por não saber como devolvê-los, vi a cartola num canto ao lado do velho baú, puída e cheirando a náusea. E lá dentro, bem dentro dela, o coelho morto.



Escrito por André às 16h24
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Terminei ontem de ler O Mar, romance do John Banville. Ganhador do Book Prize, mas agora nem isso vem ao caso. Breve, porém intenso, com uma qualidade editorial que já chama a atenção, o leitor se espanta, aí sim, com a delicadeza da prosa filigranada, segura, que parece refletir o movimento de uma maré. Idas e vindas no passado do personagem, lembrando da infância, do contato com uma família e de suas primeiras paixões; da convivência com a esposa e depois, com a ausência e a solidão. Banville tem esse sabor peculiar, caso raro até, de uma leitura em que a matéria narrada, mesmo que seja mínima. O autor se esmera em descrições plásticas, impressionistas, com uma volúpia, um olhar inaugural (e de certa forma, tenho essa impressão, é uma releitura do modo como somos modificados desde tenra idade). Resumir também nem daria conta da riqueza: basta atentar que, domínio técnico e sensibilidade andam juntos. Saber transitar em poucas frases de um tempo a outro é uma das qualidades do autor. São raros os livros que nos fazem querer ler em seguida, quando os terminamos. Este é um deles.



Escrito por André às 19h05
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