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Engrenagem
 


Testando

Aqui vai um teste para saber se isto aqui ainda funciona.



Escrito por André às 00h49
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Meu novo blog (que o Engrenagem, por motivos funcionais, está aposentado):

http://narizdepinoquio.blogspot.com



Escrito por André às 20h35
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Um rio só margem

 

 

 

 

Poesia tem seus lugares. Calha de ser no espaço que o poeta elege, mas atenção: esta eleição é uma escolha pelo precário, porque toda linguagem que se eleva a uma exceção toca-se por este signo. O poeta mesmo simula, do lugar nenhum o seu algo precioso: dizer este mesmo precário com a melhor das más intenções. O mau/bem intencionado aqui em questão é Vamberto Spinelli Júnior com o seu Sem lugar, premiado e editado pela Editora Universitária. É uma voz que já começa segura na lírica paraibana, dando-se ao luxo de estabelecer uma pequena obra que dialoga por dentro. Avança como pode, poema a poema. E deixa claro desde a entrada: onde moro ninguém / mora. O índice que usa é a desinência “des”. Lembrando o axiomático “desfazer é melhor que tecer” de Orides Fontela.

 

Essa consciência da falta perpassa a maior parte dos poemas. O sem lugar da existência também é o estatuto da não-herança, da não-identidade. O que é possível se agarrar a algo está mesmo no desespero calmo, a seco. O tempo que se evapora no sintomático “.casa de vapor”:

 

ontem morei

   100 dias na minha velhice

 

 hoje não me permito

   alterar minha infância

   nos próximos 30 segundos

 

O livro trata desse abuso da carência existencial com relativo senso epigramático. Vamberto diz com frases e imagens sem rodeios, quase descarnadas. É óbvio que o projeto soa coerente. Sobretudo nas lições intertextuais em que, mesmo vacilantes em alguns momentos, cria estratégias à beira do excessivo uso, mas ainda valida pelo senso de construção – o que é raro na maior parte das estréias. Nota ironia e o uso do trocadilho (cuidado, parcimônia também é arte!) ao gosto do público. Mas dá o salto e assume:

 

.para sui e cida

 

 de tanto morrer antes

 foice  veloz no pescoço

de vez.      

 

Na segunda parte, “.existir”, o arco vai da matéria da vida à metalinguagem, dialogando ao deus-dará com temas caros e precedentes. Vamberto se detêm mesmo nesses pequenos temas que, no conjunto, criam uma identidade própria e que com alguma sorte, reage como densidade poética. Algumas construções chamam a novidade sem medo: “e uma maré de pernas / sem bússola”, “o homenageado não veio / / seria deus?”, “poesia: gesto extingo em si”.

 

Vamberto Spinelli tem muito que dizer. Nota-se por esse doar imagem, por alguma fisgada que tanto oferece o anzol quanto o puxa sem espera por peixe. Os poemas dizem os mesmos temas de sempre, mas, com muita freqüência, o ar parece lavado dentro do livro: há mescla de estratégias construtivistas com inquirições pessoanas, e volta e meia a lírica atinge aquele interrogatório volátil próprio dos que usam a poesia como espelho, mesmo que baço. O livro tem mais qualidades que defeitos e vale dizer: conquista, num terreno avaro de geografias, um lugar. Mesmo que não se possa chamar de chão, mas areia movediça. Buscar, parafraseando Fontela, é melhor que encontrar.



Escrito por André às 12h07
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Rumor

Rumor de poema

entra em retirada

cem passos além

da intenção.

 

Fecharam a rua

para que o poema

pudesse fluir:

enchentes têm

sede.

 

Na amurada

o poema suicida olha

o abismo

de olhos saltados

 

Muita forca

para pouco pescoço.



Escrito por André às 18h11
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Atribulações de um homem-bomba

 

 

Viviam próximos do distrito de Haifa, em Um-el-Fahim. O filho tinha uma lembrança do pai, ora como um sujeito caladão, ora como um farrista. Mas Nahib pouco ligava para o filho e a mulher que tinha vindo do Brasil, mais por curiosidade do que por amor. E Nahib, como era de veneta, gostava de pegar moda: já foi taxista, já quis montar um grupo musical, meteu-se a agiota e  sócio de prostíbulo. Cismou, tempos depois, a ser um homem-bomba: tinham-lhe enfiado tanto as promessas de uma vida além, onze mil virgens, etc, que passou a freqüentar cursinhos intensivos e tempos depois, ganhou por mérito um colete onde poderia colocar explosivos como quem coloca  medalhas.

 

Doía na lembrança do filho a estupidez da morte do seu pai. E como, aos 17 anos, já tinha estrada para o mundo, soube de uma mulher que era sensitiva e poderia estabelecer uma ligação com o além, seja de qualquer religião ou seita. Convenceu a mãe de que era preciso saber se o pai estava mesmo gozando da felicidade supra-terrena, se o céu prometido pelos estúpidos da facção terrorista estava lotado das tais virgens.

 

Foram caminhando até um distrito não muito afamado. Na entrada, um mendigo disse que Safira não estava naqueles dias, mas eles fizeram pouca monta e subiram as escadas. A casa era de dois pisos e embora a pobreza fosse visível, era adornada com o mau gosto das extravagâncias. Safira não os recebeu bem a princípio, mas a vista do dinheiro, foi prática o bastante para adiantar seus rituais para pegar sinal dos espíritos. Perguntou tudo sobre Nahib e pediu detalhes sobre o dia de sua morte. Contaram que Nahib acordou, fez abluções e voltou para o quarto dos fundos onde costumava dormir só nos últimos meses – um quartinho onde se guardavam as coisas que, depois, soube que eram os materiais necessários para um homem-bomba: fios, munições, mapas.  O marido saiu às pressas levando no bolso um roteiro dos lugares que manteria contato antes de explodir num centro comercial.

 

Soube depois pelo jornal o triste destino de Nahib. Pensou assim porque a facção negou veementemente o atentado.  Nahib tinha parado num posto para abastecer o carro e resolveu dar uma volta pelos arredores. Acabou se perdendo e ao tentar cortar caminho por um beco, foi atacado por cães. Ao se defender, acionou o botão e explodiu levando consigo toda a matilha.

 

Ciente de que apesar de tudo era um pai esforçado e um marido convincente, sua mulher pediu a sensitiva que perguntasse, caso estabelecesse uma ligação, se o céu prometido valia o sacrifício. A vidente demorou uma eternidade, alegando sinal fraco da região. Foram minutos enervantes. Com um pouco de paciência, puderam notar que a voz mudou um pouco e a modulação engrossava. Reconheceram o timbre de Nahib. Eram um lamento e por alguns momentos pensaram se as virgens não o estavam chicoteando. O lamento foi crescendo, ganhou os plenos pulmões e puderam ouvir, em bom som, misturado com latidos de cachorros: Genalva, vem me buscar que eu estou odiando!

 

A vidente, com o dinheiro já enfiado no bolso, disse que Nahib estava cumprindo seu carma no céu dos 11 mil cachorros.



Escrito por André às 08h54
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As dálias da sala de jantar

impedem que o céu dos quadros

desabem:

 

há modos de pintar a solidão

que só um Dali não viu.



Escrito por André às 11h10
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Lau Siqueira

Texto Sentido

 

 

O novo livro de poemas de Lau Siqueira, Texto Sentido, é uma pergunta: com que intensidade vida e arte podem seguir adiante? Também são outras coisas: inventário de espantos, armação de nuvens, legado, baú. Depois é uma resposta feliz. Está na cara, em cada página. Quando se é poeta, é e pronto. Sem teses, sem tribos, sem rótulos. O que o seu livro é, incontestável: trabalho consciente com a linguagem. O que não é: plataforma de estéreis discussões. O leitor pode ter cem olhos ou pode ser míope, pode enxergar uma paisagem ou uma fechadura. Mas o livro está aí. E Lau traz abertamente um diálogo com seus viventes, seu jeito de mirar e acertar o alvo. Quintana, Leminski, Bashô, Augusto, Ginsberg, Pessoa. Como um cubo mágico, o que se gira cria outros problemas, sugere outras infinitas soluções.

Vem daí que em Texto Sentido Lau alterna os pólos, ora soa mínimo e exato, ora derruba a taça e espraia versos, arriscando soar verboso – embora não soe, pois está senhor do ritmo. Em alguns momentos, as metáforas dão conta da beleza – e se sustentam só por isso, sem indicar o caminho: os ventos são algazarras / do infinito / em nossos (...)

Se há um projeto visível neste livro é o da diversidade: alias, não há melhor resposta para a “inutilidade” da poesia. Ela é ciência das coisas que não se capturam por lógica e classificação. “A vastidão é um átomo”, vaticina o poeta. Sob este aspecto, mesmo que fosse um logro – e qual livro não vacila no fio que separa o joio do trigo? – Texto Sentido toca adiante suas dissonâncias e harmonias: “estirando / espinhos para o mundo / um cacto resiste”.

Lau Siqueira tem uma trajetória pautada na resistência. Faz porque quer fazer, porque gosta e porque tem consciência de linguagem. Namora com o texto solto, de grande fôlego enquanto pisca o olho para a noção espacial de que a página é uma arena que comporta funções. Faz dos poemas quartos de pensar, de ir seguindo em frente, de estruturar e decidir o que é relevo, o que é ranhura. Tudo faz mais sentido do que pedir licença para um ou para outro para exercer um rótulo. E isto Texto Sentido parece não aceitar. Daí, soar honesto, nas qualidades e defeitos.



Escrito por André às 11h11
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Literatura

Saramago, via rascunho

 

Saramago é um desses autores que, gostem ou não, ergueu uma obra. Também é um caso peculiar de work in progress (bem mais lento, mas com resultados visíveis): tendo como divisor de águas o romance Levantado do Chão, deixou, pouco antes do Nobel, algumas obras-primas: Memorial do Convento, Ensaio sobre a Cegueira e o Ano da Morte de Ricardo Reis, para ficar com meus preferidos. Agora, como é comum o resgate de outras obras anteriores para autores já badalados, lança um livro de 1974, com jeito de ficção científica, e que mistura prosa e poesia: O ano de 1993. Já andam dizendo que o livro não se resolve, nem por um lado, nem pelo outro. Obra para aficionados, portanto. Saramago é assim mesmo: ame-o ou deixe-o.



Escrito por André às 11h53
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Das falsas atribuições

 

 

Quem é bom conhecedor da obra de Luís Fernando Veríssimo, se pega com certo incômodo ao se deparar com um texto atribuído a ele. E assim com outros. Faça um teste e vá no Google. Vai chegar uma maçaroca de textos bem abaixo da qualidade dizendo ser da lavra do Veríssimo. Outras vítimas são Carlos Drummond de Andrade, Borges, João Ubaldo Ribeiro, Gabriel Gárcia Márquez. Parecem grifes que são falsificadas para dar status a muita coisa genérica de gosto duvidoso. É o que chamo de plágio de autor, um aval não consentido. E se a origem não pode ser controlada, ao menos, cabe um pouco de bom senso e desconfiar quando o texto soa desafinado. Claro que nem sempre é tarefa fácil. Os autores têm obras irregulares, altos de qualidade, funduras de textos sem vigor. As editoras já exploraram também obras bem menores, geralmente esquecidas em gavetas ou negociadas por familiares ávidos para lucrar com o espólio. Caso de Neruda, onde publicaram até os versos feitos na juventude, e de Fernando Pessoa, de onde sai até hoje coisas do baú tão heterônimo quanto o seu dono. Essas fontes são fidedignas, mas podemos recusar ou aceitar um autor dependendo do gosto. Complicado mesmo é aceitar gato por lebre, tomar uma atitude de leitor passivo.

Cora Rónai lançou um livro que trata do assunto de forma divertida: Caiu na Rede, pela Editora Agir. Uma coletânea de textos apócrifos – de falsa autoria – na internet. Diz a autora: “O meio-de-campo da Internet está tão embolado, e os apócrifos se espalham com tal velocidade, que qualquer tentativa de descobrir ou estabelecer autorias é, praticamente uma batalha perdida.” Do batalhão de assuntos, os mais usados são amor, fama e poder. E alguns, com aquele ranço de auto-ajuda. Outras modalidades vicejam por aí: perder a autoria e virar anônimo; ter o nome mudado; ser confundido com outro autor de menor importância.

Misturados nos portais e sites que divulgam com seriedade a obra do criador do Analista de Bagé, encontrei paragens de ocasião jogando na cara – melhor, descaradamente, textos sofríveis, até poemas da mais vagabunda obviedade. O clássico da falsa atribuição ainda é o dito poema Instantes, eternamente gravado em Borges. Sobre este assunto, faço minhas as palavras de José Nêumanne Pinto: De qualquer maneira, essas parcerias beirando o apócrifo produziram um folclore digno de nota. Há algum tempo, circulou quase clandestinamente no Brasil um poema chamado Instantes, que lhe era atribuído. A autoria não resistiria a uma análise crítica criteriosa, mas seu nome foi associado à peça literária sem valor nenhum e ganhou o tom de mensagem de amor à vida. Ninguém em pleno domínio das faculdades mentais imaginaria que o mestre fosse capaz de versos cafonas como: “Se pudesse voltar a viver / começaria a andar descalco no começo da primavera”. Talvez o próprio Borges risse, se recebesse um cartão de Natal com o pobre poema que algum anônimo associou a seu nome, então já uma grife. 



Escrito por André às 10h43
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Sumiços

 

 

 

Faz um tempo imenso sem te ver, não é? Também, você inventou aquela fórmula... tipo... extrema, estilo virar de página ou aquela brincadeira de espião que se cansou de ser mirado pela mira silenciosa de uma arma. No meu caso, minha arma, meu desejo, sei lá. O engraçado de tudo é que você trabalhava como assistente do mágico, coisa bem irônica, não acha? Não lembro o nome dele ou ele mesmo jamais quis um nome, mas uma vez saímos, eu, você, ele e o coelho. Sem a cartola, claro. Recordo a cena de ciúme velado, já nessa época brigávamos muito, sabia do teu gosto em começar a ficar oculto na minha vida. Você fazia isso muito bem. Espetáculos caseiros e paranóia. Nosso aniversário de namoro, combinamos uma aliança, recorda? Você chegou bêbado, sem pressa... como se a alma ainda estivesse saindo da carruagem e o corpo, desamparado, ficasse tímido e sem ação comigo. Não tinha muito o que dizer e quando tentamos nos dar a aliança, aquela sua brincadeira de mau gosto, a mão oferecida não existia, era decepada. Ilusionismo barato, este. Eu te jogava a louça, louca de raiva...você rebatia com um lenço vermelho e tudo sumia, nem cacos no chão, nem o grito estilhaçado da porcelana. Mandei tua mágica pros infernos tantas vezes que ela acabou ganhando foros de diabólica. Você então acabou desconfiando dele, não? Sei que rolou aí um ciúme violento, e que houve até discussão por minha causa. Os espetáculos no palco foram movidos a ódio e alçapões. Olha, eu tentei evitar, mas o encantamento maior foi saber que o mágico, mesmo no vendaval competitivo, e separando bem com o lema “amigos, amigos, mágicas a parte”, me respeitava e em encontros fortuitos, dizia que você não era má pessoa, frisando que sua imaturidade era uma questão maior, de filosofia de vida. E que a mágica era uma ilusão, não existia...era tudo truque e timing. Mas você era obcecado por resolver seus problemas na base da cartola, da fumaça, do serrote. De certa forma, foi o que houve, não? Em pouco tempo, a dissimulação, aquele movimento interno de farsa entre a gente... uma convivência entre cavalheiros saídos de romance inglês, pistolas de duelo vibrando no estojo. Você brincava e só você admitia brincar. No jantar que fizemos para o mágico (o coelho tinha sumido desta vez), senti que a mesa ainda era a extensão do palco e eu era uma platéia a ser conquistada. O mágico, como que provocava uma espécie de espicaçar mudo, na ordem natural e na selva dos sentimentos. Além da iguaria que preparei com esmero, você me tirou uma rosa inexistente do decote e a exibiu; o mágico a tomou de você e já era uma adaga na mão dele. Com um gesto de enfado, jogou no chão e era outra vez uma rosa, murcha. Senti um calafrio, a luz faltou, acendemos velas. Assim, a meia luz, vocês discutiram a possibilidade de mudar um determinado truque no palco, já que a idéia criadora partiu de você. A voz saiu tremida, meio mágoa, meio virulência.  O mágico hesitou, mas talvez num gesto cortês, olhando-me de fininho, concedeu a primazia. Sim, lembro, semanas depois, de tanto insistir, fui à estréia e vi um truque espalhafatoso, vazio e artificial. Era uma caixa de tamanho natural. Admira-me o mágico se propor a semelhante jugo, ele tão acostumado a dar as cartas. Amarrado e amordaçado, uma porta cheia de escamas afiadas. Como se acomodar lá dentro sem se ferir? Houve ribombos, as caras e bocas da platéia. Você anunciando o desaparecimento do mágico. Depois, fumaça, uns salamaleques de tua parte e helás, a caixa abriu-se com um bocejo de morte e só vimos o vazio. O mágico tinha sumido. Findo o espetáculo, muitos se perguntaram se o truque se estenderia ao infinito e onde poderia estar o mágico, etc; ele não voltara e houve aquela explicação artificiosa de que não passara bem e tivera que sair às pressas. Eu escapei apreensiva e tentei chegar até você, alcançando o beco do teatro. Depois tive medo e nessa hesitação, um vento gelado e a carruagem às pressas; supus que teu vulto e a cartola (dele? de quem mais?) sumiram na névoa. Dias depois, a temporada de shows foi cancelada. Nunca soube o que houve, o que se passara na tua cabeça e o que era do mágico. Voltei a treinar um ar meio blasé, acostumando-me com a idéia de vida que se cancela em cada dia e de compromissos que não voltam ao ponto de partida. Até o dia em que mexendo em coisas guardadas lá no porão, caixas antigas e objetos que fiquei por não saber como devolvê-los, vi a cartola num canto ao lado do velho baú, puída e cheirando a náusea. E lá dentro, bem dentro dela, o coelho morto.



Escrito por André às 16h24
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Terminei ontem de ler O Mar, romance do John Banville. Ganhador do Book Prize, mas agora nem isso vem ao caso. Breve, porém intenso, com uma qualidade editorial que já chama a atenção, o leitor se espanta, aí sim, com a delicadeza da prosa filigranada, segura, que parece refletir o movimento de uma maré. Idas e vindas no passado do personagem, lembrando da infância, do contato com uma família e de suas primeiras paixões; da convivência com a esposa e depois, com a ausência e a solidão. Banville tem esse sabor peculiar, caso raro até, de uma leitura em que a matéria narrada, mesmo que seja mínima. O autor se esmera em descrições plásticas, impressionistas, com uma volúpia, um olhar inaugural (e de certa forma, tenho essa impressão, é uma releitura do modo como somos modificados desde tenra idade). Resumir também nem daria conta da riqueza: basta atentar que, domínio técnico e sensibilidade andam juntos. Saber transitar em poucas frases de um tempo a outro é uma das qualidades do autor. São raros os livros que nos fazem querer ler em seguida, quando os terminamos. Este é um deles.



Escrito por André às 19h05
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Férias do relógio

 

As férias do relógio estão em toda a parte, divididas em porções minúsculas tão universais que o pulso humano sequer sente. Uma taquicardia sem sons, essas folgas do relógio estão absorvidas por goles e sorvos de tempo e completam seus aniversários pungentes com distrações de inércia que mais parecem temporadas pulverizadas. Um relógio tira férias quando bem entende porque o patrão que o monitora constata apenas um tempo morto, registrado, e não sua pulsação constante, de onde é possível, nas selvas do minúsculo, esconder ócios de maquinário breve. Um relógio volta descansado dessas férias porque por si só não tem noção de tempo; seu coração é transferido para o desespero de quem o possui.



Escrito por André às 11h03
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Lançamento

Notas atemporais para um momento preciso: tarde

 

 

 

Tarde

Paulo Henriques Britto

Companhia das Letras

 

Saiu o novo livro de Paulo Henriques Britto. Chama-se Tarde. Seguindo uma linha predominante em sua poesia, mais ainda em Macau (livro anterior) vemos nesta sua nova obra um refestelar-se em referências, na metalingüística, no tom sóbrio e mais ainda sofisticado. Paulo emula fórmulas, refaz, relê. Passear em uma obra sua é reconhecer velhas estantes em nova arquitetura. Em entrevista para o jornal Rascunho, Paulo Henriques defende a poesia como um hobby com tempo, intimidade e lugar próprios. O desinteresse geral por esta dimensão foi substituído, pelos dias atuais, por formas massificadas de entretenimento. Na verdade, devo concordar, poesia não é estatística, não é pesquisa de Ibope e não é possível mensurar quem deixa de ler, quem troca por outras maneiras de absorver mundos, quem se desilude, quem procura rima e ritmo além do que oferece a música popular. Poesia é um estado de existência, ou se escolhe, ou se abandona. Ler algo deste poeta é refletir acima, abaixo, dentro do seu canto exato. Mas não menos imprevisto.

 

TRECHO • Tarde

 

 

É isto que me cabe.

Dentro disto é necessário caber

até que tudo acabe.

 

Mas há nisso uma espécie de prazer,

uma volúpia esguia,

impalpável, difícil de dizer,

 

feito uma melodia

que se escutou e depois se esqueceu,

porém retorna um dia,

 

inconfundível: sim, este sou eu,

e eis aqui o palácio

que construí, e agora é todo meu:

 

um só andar, um passo

de frente e um de fundo. É um bom começo.

 

(do poema Balanços)

 

Paulo Henriques Britto.



Escrito por André às 11h07
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Vamos sussurrar, não à Meca,

preces acima do martírio

e esperar que os patíbulos ergam o ar

acima dos condenados.

 

Não homenagear a ausência, e ir um pouco

além, sequer estender o véu

que a palavra exata, o verso feito espada

nos feriu, vindo de Recife.

 

Alberto, como um cão de olhos só faro

indo de rastro em aço, foi para os lajedos

para que o musgo seja pressentido

por sobre a pedra que faísca, a poesia.

 

Ali descansa um poeta; dói um poema.

 


Alberto da Cunha Melo tem uma poesia de cunho especular, rarefeita, por não se vender ao óbvio, e mais cortante do que muita faca amolada. Merecia ser celebrada sempre, e não apenas por seu criador nos deixar como legado. Um poeta já é um legado, independente das contingências da vida e da morte. Conheci muito pouco em vida, mas aprendi a conviver e me maravilhar com sua obra - do qual, apenas dois livros seguram minha estante. O alicerce está aí, para sempre. Fica a minha homenagem.



Escrito por André às 13h33
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Náufrago

Eu afundo com muita facilidade. Não em grandes extensões marítimas. Não tem nada a ver com água, afogamento, estertor. Não na praia, no rio, nem no lago. Eu afundo perto de mulheres. As que eu desejo. As que eu quero tocar. Não tenho rotas definidas, e minha bússola não é confiável. Em vez de mapa, tenho espinhas. E não sou capitão coisa nenhuma. Sou marinheiro de primeira viagem. Sou do subúrbio, a quem chamo de ilhas. Adoro Moby Dick, mas não cheguei ao fim. Não é o mar, mas a calmaria que me assusta ali. Então largo o romance, experimento a terra firme, vou de arpão para as mulheres. Tem uma menina na rua, eu consegui chegar muito perto. Ela aceitou dividir um banco de praça. Não sei se por curiosidade, troça e tédio dos dias. Talvez uma mistura. Até dobrar a esquina e ir me aproximando da praça, senti a dureza do chão, tinha uma rota - era eu. Quando me aproximei, fui me apagando, o chão ficou movediço, pantanoso. Quando sentei no banco, passei a enjoar, não tinha o prumo das frases. É assim mesmo, pensei. Você divisa ao longe um peixe que parece pequeno, e que cabe na idéia do arpão. Você tem a obsessão de Ahab. Aos poucos, basta aproximar, a brancura violenta e os olhinhos náufragos te observando, e as sardas (esta baleiazinha tem sardas) te faz sentir indo na direção dela com o arpão mais te ferindo do que ameaçando a presa. E mal ando na lâmina do oceano, fingindo heroísmo, o pé vai afundando. Juro a mim mesmo: isto é um banco, um banco, um banco. Pensava, de cimento: mas é de areia. Quem escapa para o fundo é a baleia. Quem encalha de vez sou eu.



Escrito por André às 17h30
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